A pandemia do novo coronavírus está alterando profundamente a forma de trabalhar de bares, restaurantes e demais estabelecimentos que oferecem alimentação fora do lar. Para entender como os estabelecimentos estão reagindo e também quais as perspectivas para esse setor passado o pico da pandemia, entrevistamos Matheus Lessa, treinador, palestrante e consultor desse segmento.

À frente da empresa Domine seu Restaurante, já atendeu centenas de negócios de alimentação por todo Brasil. Atualmente, mantém também uma escola online e é embaixador da Fispal Food Service, a maior feira no segmento de alimentação fora do lar da América Latina.

Para ele, a crise gerada pelo coronavírus vai provocar uma grande transformação no setor. Em sua avaliação, os estabelecimentos vão precisar usar bem o marketing digital e comunicar seus diferenciais e propósitos para sobreviver em uma era em que o novo normal é o virtual. Confira a seguir a entrevista.

1. Como a crise causada pela pandemia do coronavírus está atingindo os restaurantes?

Todo mundo foi pego de surpresa e foi impactado, de forma direta ou indireta, pela pandemia do coronavírus. É claro que alguns negócios de alimentação já tinham uma visão de que o delivery vinha crescendo com muita força no Brasil. Nos últimos anos, esse crescimento foi exponencial, de 5% a 8% ao ano. Alguns negócios de alimentação já tinham começado a se preparar criando canais de venda para atender essa demanda.

Só que a grande maioria dos negócios de alimentação no Brasil, quase 60% deles, é composta por restaurantes self service. Para esses restaurantes, o delivery nunca foi visto com bons olhos. A proposta desses estabelecimentos é atender a demanda de uma região, principalmente quem trabalha perto. Agora, com a Covid-19,  esses restaurantes e os de alta gastronomia foram os mais impactados. Isso ocorreu por não terem pensado o delivery como canal de vendas.

Quem já tinha o delivery estruturado continuou crescendo, alguns até duplicaram o faturamento durante a pandemia. O segmento de alimentação está passando por um grande processo de mudança. Quem não entender que o delivery veio pra ficar vai continuar sofrendo, porque a gente não sabe quanto tempo vai durar o fechamento do comércio.

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2. Quais soluções criativas têm surgido e que podem inspirar outros empresários para enfrentar a pandemia do coronavírus?

Este é o momento de se reinventar. Temos atendido donos de restaurantes que têm feito maravilhas pra continuar atendendo seus clientes. Kits de diversos produtos, como churrasco, petisco e até drinque, em que cada parte é enviada em uma embalagem separada para o cliente montar, ou ainda brindes personalizados.

As pessoas querem um processo mais humanizado, em que você mostra um propósito em torno de sua marca. Por que seu negócio é diferente, o que está fazendo nesse momento da pandemia do coronavírus, como você tem se comportado, o que tem feito pela sociedade. Quanto mais você vincula isso ao seu marketing, maiores são as chances de as pessoas se conectarem com sua marca verdadeiramente.

3. Você fez uma maratona de conteúdo e realizou uma série de lives para ajudar donos de restaurantes a atravessar esse momento crítico. Quais são as principais angústias que eles vêm compartilhando com você?

O Domine seu Restaurante está baseado em quatro pilares: gestão, liderança, marketing e vendas. Na Maratona Bora Dominar, feita no Instagram @domineseurestaurante durante 28 dias, mapeamos os quatro pilares e distribuímos os temas ao longo desse período. Começamos pela mentalidade do empresário, processo de contratação, gestão da equipe, metas e avaliação. Passamos por estrutura financeira, gestão de cardápio, gestão de estoque, fluxo de caixa.

A intenção é ajudar as pessoas a entender que é difícil continuar vendendo agora. Sabemos que o estabelecimento precisa vender, mas será que ele está fazendo da maneira correta? Cobrando o preço justo? Agregando valor ao seu produto? Está sabendo se conectar com seu cliente? Sabe se posicionar como referência em seu mercado de atuação? Trouxemos todos esses questionamentos que os gestores do segmento de alimentação e bebida se fazem. Preparamos o terreno e na reta final tratamos de marketing e vendas.

A gente observa que os donos de restaurantes querem a solução para vender mais, mas muitas vezes estão com a empresa desestruturada e, mesmo vendendo, não conseguem ter lucro. Por isso focamos nos quatro pilares, para que o empresário se preocupe em estruturar a empresa e entenda que o lucro é consequência e não objetivo.

4. Como você imagina que vá ser o mundo dos restaurantes no Brasil depois do coronavírus?

Acho que ainda é prematuro pensar como será o futuro do segmento de food service no Brasil. Acredito que teremos medidas de distanciamento dentro dos espaços. Por exemplo, um restaurante que tem 20 mesas deve operar com metade disso. Os restaurantes que oferecem buffet vão precisar se preparar para oferecer serviço comercial, prato executivo. E os restaurantes que ainda não estão atuando no delivery precisam urgentemente se planejar pra isso.

Para mim, o grande diferencial nessa escalada de manter o restaurante operando vai ser o marketing digital. Hoje o virtual é o novo normal, as pessoas estão completamente conectadas. Quem não souber fazer, não entender ou subestimar o marketing digital corre sério risco de desaparecer da memória das pessoas.

É preciso saber jogar esse novo jogo até que uma vacina surja e as coisas voltem aos padrões de antes. E a gente não sabe quanto tempo vai levar pra acontecer. É importante focar a energia no que a gente controla. Foque no seu propósito, no que você acredita, no que vai te diferenciar. E use o marketing digital para comunicar isso para seus clientes

Acompanhe nosso blog e confira as principais notícias sobre o coronavírus que podem impactar os estabelecimentos de alimentação fora do lar. Além de entrevistas e textos produzidos especialmente para o canal, você pode conferir uma curadoria especial de notícias relevantes para o segmento publicadas na imprensa.